quinta-feira, 28 de maio de 2009

O plano de Deus para nos aperfeiçoar

Tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações (Tiago 1.2-4).


Poucas seriam as afirmações mais insanas do que esta! Regozijo, satisfação, júbilo, por passar por situações difíceis, desagradáveis. Situações que todo e qualquer homem de regular juízo jamais buscaria, ou aceitaria como normais. Dor, sofrimento, amargura, depressão, enfim, a sensação de derrota como gosto azedo na boca; e como peso sobre os ombros. Uma sensação estranha de desânimo. Uma indisposição que leva à morte, em todos os níveis da vida: espiritual, moral, emocional, social, etc. Por que, e como, me alegrar com tais sensações?


Talvez, o mais incrível seja a afirmação de que este é o processo que Deus planejou para aperfeiçoar o homem. E é exatamente esta a resposta que Tiago daria à pergunta anterior. Em seu texto, ele faz três afirmações:


A primeira, é que as provações produzem firmeza e constância (2-3).


“tende por motivo de toda alegria”. A ordem é categórica e exorta a uma decisão de encarar as provações com uma atitude alegre; por causa dos benefícios trazidos.


“o passardes por várias provações”. A palavra usada por Tiago indica qualquer espécie de provação (peirasmos). Toda a forma de acontecimento desagradável seja como conseqüência de suas ações ou mesmo de algo externo que lhe machuca. Temos mais a indicação de vários tipos de provações do que de quantidade.


“sabendo que a provação da fé, confirmada, produz perseverança”. A razão pela qual devemos reagir com alegria, é que elas são uma prova, através da qual Deus opera para aperfeiçoar a nossa fé. A palavra provação usada por Tiago (dokimion) significa testar, normalmente usada para se referir ao processo pelo qual prata e ouro são refinados pelo fogo. Assim, as provas testam a validade de nossa sinceridade, de nossa vitalidade. Mostram a qualidade de nossa fé, se é pura, ou se há nela elementos de corrupção, buscando purificá-la. Desta forma, a idéia não é a de que as provações determinam se temos fé ou não. Mas sim, visam fortalecer a fé que já existe.


"produz perseverança”. Este é o objetivo imediato do teste. Não há qualquer idéia de simplesmente suportar tudo com um sorriso no rosto, sem queixumes, embora isso também seja uma virtude. O foco principal é a constância. É a força de caráter que nos ajuda a realizar nossos propósitos espirituais.


É interessante observar que a expressão: “a provação da vossa fé, uma vez confirmada”, pode simplesmente ser traduzida como: “sabendo que a aprovação da vossa fé produz perseverança”. Perseverança, constância, é o resultado na vida dos vitoriosos. A forma comum é dizer: ele venceu porque foi perseverante. Tiago diria: ele perseverou porque venceu, porque foi aprovado em meio às provas que lhe sobreveio no dia-a-dia. E isto nos leva ao próximo ponto, que esclarece o porquê desta obra bem sucedida.


A segunda, é que as provações indicam a presença de Deus em nossa vida.


Ele faz doer. Leva-nos a sofrer com nossas próprias ações ou reações, devido às imperfeições. É somente sofrendo, sendo marcado na carne e na alma que muitos aprendem.


É difícil. Dói mesmo, mas Deus está lá, presente. Dói perder um ente querido. Principalmente quando não se é esperado. Dói, mas Deus está lá. Dói sofrer humilhação diante de tantas pessoas, expondo o nosso orgulho, o nosso erro ao insistir com uma educação errada de nossos filhos. Dói, mas Deus está lá. Dói casar e descobrir que o cônjuge não é aquilo que aparentou ser. Dói demais descobrir que o cônjuge não tem vontade e disposição em cumprir com o que prometeu, não sendo verdadeiro marido, ou verdadeira esposa. Dói viver isso no dia-a-dia, e saber que tem de lidar com esta realidade indesejável. E na maioria das vezes em silêncio. Dói, mas Deus está lá. Dói pedir tanto por um emprego, e quando este chega saber que terá de deixá-lo, ou pelo menos, se arriscar a perdê-lo, por exigir de você algo que não é aceitável a um discípulo do Senhor. Dói, mas Deus continua lá. Dói lutar e lutar para resolver problemas de relacionamento, chegando ao estresse emocional, ao limite físico, e descobrir que por mais que se faça nada parece indicar solução. Dói, mas o Senhor está lá. Dói sentir a facada da traição daqueles que amamos, daqueles que temos como especiais; descobrindo que talvez não somos tão importantes como achávamos para tais pessoas. Dói demais, mas Deus está lá. Dói descobrir que o filho que cuidamos com tanto carinho enquanto pequeno e dependente, virou as costas para nós, quando chegou à maioridade. Não devolvendo o amor que recebeu durante toda a sua formação. Dói muito tal coisa, mas Deus continua presente. Dói perder tudo o que se tinha, e descobrir que toda a segurança aparente, e planos futuros caíram por terra; trazendo sofrimento, insegurança e vergonha. Dói, mas Deus está lá.


Deus continua lá, presente, executando seu plano em sua alma. Deus continua a agir, amorosamente, como um pai, buscando promover sua melhoria, para que, aperfeiçoando seu caráter, você como filho se pareça mais com ele.


Normalmente temos o questionamento: Não poderia ser de outra forma? Tiago, provavelmente, responderia com outra pergunta: Para moldar nossa vontade e caráter? A resposta é: Não. De outra forma Deus faria um milagre impessoal: Faria-nos dormir, e tiraria e colocaria algo, e então acordaríamos mudados. Seria impessoal, pois isto não implicaria em uma mudança consciente, sentida e aprendida; seria mais parecido com a mudança de alguma peça em uma máquina. Para nos direcionar a mudança, fazendo-nos desejar, e levando-nos a mudar, somente através da experiência vivida por meio das provações. Pois, estas, jamais esquecemos, estas nos marcam por toda a vida.


A terceira, e última, afirmação é que as provações formam o caminho para a perfeição (4).


Tiago mostra que a perseverança conduz à perfeita obra. “a perseverança deve ter ação completa”. Ação completa significa, literalmente, uma obra perfeita. Tiago revelará em sua carta que o processo inteiro é uma operação divina, por isso, possível (1.16-18).


A perseverança, resultado da aprovação do crente em meio às provas, deve chegar até o seu destino: a perfeição. E esta perfeição se resume em possuir o caráter de Cristo. “para que sejais perfeitos e íntegros”. No original a palavra: íntegros é uma junção de inteiro e partilha. O que indica uma partilha inteira da perfeição, olhando o todo da pessoa. A idéia é a de que sejamos perfeitos, completos, iguais a Cristo, inteiramente, olhando o todo de cada pessoa.


E ele completa, dizendo: “em nada deficientes”. Sem imperfeições nas qualidades morais. Essa é a idéia central de Tiago em sua carta: como trilhar pela vida, passando pelas provas, a fim de possuir a sabedoria de Deus, e, sendo igual ao seu filho, ser perfeito em tudo, em nada deficiente.


"Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre”.Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida (Deus) nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos.


Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Mas, com isso, a possibilidade da grande transformação também.


Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: Ploc! E ela aparece como outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.


Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras, a vida inteira. Não se transformarão na flor branca, macia e nutritiva. Não darão alegria para ninguém, nem para si mesmas.


Esta perfeição, possível através da perseverança, possível ao ser aprovado nas provações, conduz o homem à felicidade.


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Por quem ministramos?

Sentimo-nos vocacionados em um determinado momento em nossa vida. Alguns, de uma forma mais subjetiva, ou mesmo mística; outros, por um processo mais racional. De qualquer maneira, passamos pelo crivo da igreja, com a concordância da liderança, e, posteriormente, dos membros (mesmo que seja por simples aposta: “Quem sabe?”).

Tenho dom, e talento! Como confirmá-los? Este é o papel da igreja. Então, ela entra em cena (pelo menos, deveria). Orientação, atuação, observação, e confirmação é a atuação bíblica da igreja, centrada em agradar ao Senhor, e em investir em seu próprio crescimento.

Pois bem, nossa vocação parece confirmada. Então, o próximo passo: A formação. A escolha do seminário, as disciplinas; tantas tarefas! No mesmo compasso em que a admiração é aumentada, surge a cobrança. Uma mescla de cuidado e exigência. O que fazemos, dizemos, vestimos, comemos, tudo, absolutamente tudo passa a ser considerado. Mas, tudo bem, pois isso também faz parte da formação; afinal, é exatamente com este tipo de atitude que lida todo aquele que vive o ministério.

Após alguns anos, surge, enfim, a formatura. E, então, o ministrar. Onde se encaixar? Se a igreja tem a visão do preparo voltado para o servir através dela, ótimo! Enorme caminho já percorrido; faltando apenas o encaixe que lida com o tamanho do servir: Parcial, integral; em que área específica; o ajuste da equipe ministerial; etc...

Ufa! Finalmente, o servir ao Senhor, integralmente, servindo ao próximo. E, uma nova etapa: o fazer discípulo, formando outros para o ministério.

Em todo esse processo temos de lidar com algo fundamental, que tende a passar desapercebido, por ser algo normalmente inconsciente: Ministramos por quem? Eu sei que a resposta automática é: “Pelo Senhor”. Mas, como sugerido, esta é em muitos momentos automática. Como saber se não fazemos por nós mesmos?

Creio que um bom entendimento seria: Quando notamos que nosso contentamento não depende tanto da reação dos outros. Quando percebemos que o ministrar é prazeroso. Quando a humildade é preservada na disposição em aprender. Quando há maior abertura para a virtude do próximo do que para os defeitos. Quando nos tornamos menos críticos e mais compassivos; firmes, porém, cheios de misericórdia. Quando a tendência em perseverar se torna natural em nosso proceder. Quando aplicamos a soberania de Deus em nosso viver diário, não nos desesperando; ou mesmo vendendo tudo o que se crê. Quando as pessoas notam sinceridade em nossos relacionamentos. Quando o sofrer passa a ser algo não procurado, mas entendido como natural na vida de todo homem, e também de todo servo. Quando a paz da alma se torna uma marca da presença de Cristo em nossa vida, trazendo equilíbrio para o ministério.

Quando notamos que o erro e a rebeldia alheia menos afeta o nosso “eu”, e mais desperta a nossa compaixão; podemos, então, dizer que ministramos pelo e para o Senhor.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O Incômodo

Algo incomodava!

Todos reunidos em um mesmo salão, aguardando a mesma reunião. E algo incomodava ao irmão Gumercindo (nome fictício).


Não eram as vestimentas, pois todos se trajavam adequadamente. Não eram os cabelos. Não! Não eram os penteados, pois nada havia de exagerado. Não era a ausência de Bíblias, apesar de que alguns eram viciados em perderem as suas. Além de todos a possuírem, ainda havia diversidade de versões e estilos, revelando abundância da literatura santa.

Nada que fosse visível. Mas, algo incomodava.


Seriam as canções? Ou, pelo menos, a forma de manifestá-las? Haviam cânticos variados: hinos e hinetos, centralizados em um tema que a todos regiam em busca do conhecimento; visualizando a edificação pelo entendimento. Além disso, havia tantos que cantavam com maestria! Outros, nem tanto; porém, entoavam seus cânticos como expressão de louvor e gratidão ao Senhor do riso e pranto.

Hummm...


Seriam as pregações? Havia estudo consciente para quem quisesse ser gente, à luz da Revelação suficiente. Seu conteúdo era literalmente bíblico, e sua manifestação se dava por meio simples; o essencial para a compreensão de todos: cultos, incultos; idosos, jovens e crianças; antigos ou modernos.

Não! Não era algo visível, nem audível; mas, algo incomodava.


Seria o coração? Aquilo que não se vê, nem se ouve, diretamente. Gumercindo, então, se deu conta de que o incômodo vinha de dentro. De seu coração adormecido, sem reação positiva ao que via, lia, ouvia, compreendia e concordava. Precisava, urgentemente, de um remédio para curar o incômodo. Precisava de Deus! Não simplesmente o do Livro (Bíblia); o das histórias narradas; o da experiência dos outros; mas sim o que sensibilizava a alma. Precisava apreciar a beleza: cultivar a alegria; aprender com a tristeza; amadurecer na tribulação; saborear o conforto divino; enfim, ver Deus em todos os momentos, e em todas as pessoas. Precisava de menor rigor, e de mais amor.


Algo o incomoda?

Seria o seu coração? ...


“Enganoso é o coração, mais do que todas as cousas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos...” (Jeremias 17.9s).



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Começa no coração

Um ex-aluno do Seminário Batista Regular em São Paulo, e ex-membro de nossa igreja, manifestou, após ingressar no seminário sua surpresa com as exigências ministradas. Já possuía duas formações acadêmicas seculares, de nível elevadíssimo; mas ficou positivamente perplexo com o nível de nossa formação teológica.

De todas as possíveis, sabe qual a principal razão deste nível de exigência?

É que não trabalhamos somente com o conteúdo, visando às ferramentas para exercer o ministério. Trabalhamos o caráter. Aliás, partimos da formação do caráter; e prosseguimos com esta formação até o fim; por entendermos a clara exigência de nosso Senhor, e sua lógica de que produzimos aquilo que possuímos; fazemos aquilo que somos.

Um rápido olhar nas Escrituras, autentica esta afirmação (Atos 6.3; 2 Timóteo 2.1-2; Tito 1.5-9). Não importa a área de atuação, ou mesmo se tratamos de leigos ou ministros; a ordem da exigência é a mesma: caráter, para depois ação. O interior, para depois o exterior.

Para o sucesso da formação, e, posteriormente, do ministério, é fundamental a compreensão de que estamos preocupados não simplesmente em conceder conteúdo, visando a atividade; mas, que antes mesmo disso, estamos preocupados com o tipo de pessoa que o aluno é, e o tipo de pessoa que o aluno está se tornando; pois entendemos à luz das Escrituras que essencialmente isto determinará o tipo de ministério que terá.

1 Timóteo 4.12-16 (rápidas considerações):

Você é jovem! (mesmo que seja na formação). E daí? Isto não é problema, desde que assuma o padrão do Senhor em sua vida: "Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, e na pureza".

Como este padrão é observado?

1. No conhecimento do Senhor. No inculcar de seus princípios. No respeito, na consideração à sua vontade manifestada através das Escrituras. É fundamental se lembrar: O temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Isto está na "palavra" do v.12, mais o v.13: Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino.

2. Na maneira de agir ou de reagir àquilo que se aprende, e que é, conseqüentemente, esperado. Isto está no "procedimento" do v.12, mais o v.14: Não te faças negligente para com o dom que há em ti.

3. No amor pelo Senhor, expressado no cuidado e na vontade do que fazemos; e no cuidado em nosso relacionar com o próximo. Isto está no "amor" do v.12, mais no v.15: Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifeto. diligência vem do verbo latino diligere, que significa amar. Diligente significa aquele que ama. A virtude da diligência consiste no carinho, alegria e prontidão com que pensamos no bem e nos dispomos a realizá-lo da melhor forma possível. Dedicar-se inteiramente por amor e com amor; isto é, amar de tal maneira que o progresso se torna manifesto a toda e a qualquer pessoa.

4. Na firmeza da fé. Crescendo na convicção daquilo que considera nas Escrituras. Não deixando de assumir posição, diante das oportunidades. Isto está na "fé" do v.12, mais o v.16: Tem cuidado da doutrina.

5. Na pureza de sua alma. Isto é fundamental, como observamos no início; tão fundamental que todas as outras possíveis manifestações do padrão de Deus para nossa vida, dependem essencialmente desta.

Há muitas pessoas competentes na arte de estudar, na prontidão em agir ou reagir, na firmeza de suas convicções; que, no entanto, não conseguem servir adequadamente, por não possuírem pureza em suas motivações, agradando assim ao Senhor.

Como o próprio Senhor disse a Samuel: O Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, vê o coração.

Por isso, Paulo afirma a Timóteo: Tem cuidado de ti mesmo. Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina, expressando a idéia de tornar a doutrina encarnada; sendo ensinada, e preservada, através de nosso viver.

Fazendo assim, serás bem-sucedido.

A formação de quem ministrará ao Senhor, e pelo Senhor, começa no coração. É um processo. Às vezes doloroso. Mas, fundamental para o viver da salvação, além daqueles que estarão debaixo de sua liderança.

A formação começa no coração!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ser grande

Nunca alguém tão grande se fez tão pequeno para tornar o pequeno grande. Esta é uma excelente afirmação acerca de Jesus Cristo. Mas, também, uma inteligente maneira de expressar aquilo que o próprio Senhor já ensinara: “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10.43-45).

Todo ser humano enfrenta a luta em alguns momentos de sua vida, senão em toda a sua vida, de ser grande ou pequeno, ator ou coadjuvante, esplêndido ou simples, um ser exaltado ou humilde. E essa realidade encarnada em nossos membros, é vivenciada em nossos momentos como filho, ou irmão, pai, cônjuge, membro, pastor, aluno, professor, ...

Crescemos ouvindo por todos os lados que somente os fortes vencem (é a teoria da evolução). É comum a propaganda do endeusamento do eu: Priorizar os meus pensamentos; estabelecer a minha idéia; proteger as minhas emoções; potenciar o meu visual; enfim, tudo para tornar-nos potencialmente superiores, resistentes à opinião alheia; capaz de nos impor, independentemente do custo. É realmente difícil, quase impossível, não ser contagiado pelo gigantismo do eu.

Daí o sofrimento... Se alguém consegue “vencer”, seguindo tal política, sofre por não ter amigos à altura de seu ego, que o amem, independentemente de suas vitórias. Se, consegue vencer, provavelmente terá parceiros de negócio, ou sanguessugas para se alimentarem de suas conquistas, enquanto essas existirem. Se, for vitorioso sofrerá por não suportar ser deus. Não resistirá a pressão da lógica diária de sua inquietação, de sua insatisfação, de sua solidão. Sucumbirá diante da incoerência entre a vitória do marketing próprio e a derrota do ser humano, cheio de defeitos; repleto de sentimentos contidos que, como uma panela de pressão, vive preste a explodir.

É claro que precisamos crescer. E este é o objetivo de Deus ao agir em nós por meio de seu Espírito: nos aperfeiçoar. Porém, sem esquecermos de quem somos, pois somente assim saberemos do que precisamos. Somos homens. Seres limitados, cheios de imperfeições, inseguros por natureza. Seres que vêem a necessidade de diariamente vender a própria imagem, objetivando autenticação alheia, transformada em elogios, concordância e aplausos (exaustivos aplausos...).

Cristo ensinou: “Quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado” (Marcos 23.12). Estanho aos nossos ouvidos essa afirmação, pois não combina com nada que ouvimos, lemos e vemos no mundo em que vivemos. Mas, interessante, quando observamos isso se tornar realidade em nossa vida, ou na vida de outros.

Em minha formação teológica, aprendi de muitos mestres. Cada um com seu estilo, conteúdo e carisma. Mas, um dos que mais marcou foi aquele que sempre se mostrou humilde. Não tinha receio de revelar sua limitação, e de reconhecer seus erros. Interessante que de todos os mestres, foi o que mais cresceu durante o período de nossa formação. Além disso, foi marcante não somente para mim, como para toda a turma. Recentemente revi um casal de nossa turma, e conversando percebi que ambos tinham a mesma admiração, e a mesma marca em suas vidas daquele professor. O humilde será exaltado.

Essa atitude revela amor. Amor em dar, em doar, em compartilhar, em aprender e ensinar ao mesmo tempo. Amor em ser gente, revelando dependência do Senhor. Amor em mostrar o caminho para vivermos uma vida mais prazerosa, mais livre e caridosa.

Devemos, em Cristo, assumir o que somos e o que precisamos; pois somente assim seremos livres para viver autenticamente. Como disse Cristo: “O Pai procura verdadeiros adoradores que o adorem em espírito e em verdade” (João 4.23-24). É impossível esta espiritualidade brotar em verdade sem que o nosso eu seja livre no Senhor. Enquanto insistirmos em mascarar o nosso eu, assumindo a coordenação de nossos relacionamentos, não experimentaremos o viver de Cristo em nós, como novas criaturas.

Ser pequeno diante do Senhor, doando-se ao próximo, vale a pena. Talvez não conquiste o mundo”, mas certamente conquistará a verdadeira experiência de se viver com Deus.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O Abandono que gera vida

Cristo é sinônimo de vida. O incrível é a fórmula usada para se chegar até esta vida. Quando consideramos os evangelhos, nos deparamos com algo aparentemente contraditório; porém, real e fundamental para a obtenção da vida: o abandono.

Paulo escreveu aos filipenses (2.5-11) relembrando o abandono do Senhor de sua condição gloriosa para assumir a forma de servo, em humilhação, sendo obediente até a morte. O interessante no texto não é a informação acerca de Cristo, pois a temos em outros textos; mas sim, a expectativa do apóstolo para com seus leitores: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. O termo usado por Paulo exorta seus leitores a ter a mesma disposição mental que seu Senhor. Uma disposição de altruísmo, de interesse pelos outros, de servir, mesmo que incluísse a possibilidade de perder a própria vida. A aplicação é direta: Devemos pensar, sentir, desejar e viver como Cristo, sabendo que isto implica em abandonar nossas particulares expectativas sobre a vida.

Para vir nestas condições, Cristo teve de abandonar sua condição naturalmente gloriosa. Além disso, durante toda sua vida, vemos um abandonar contínuo, e sereno, de prazeres particulares. Em todo tempo disse: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou” (João 6.38). Não que sua vontade necessariamente fosse outra, pensando em prazeres da vida. Mas, foi cuidadoso em especificar que seu alvo era o de viver a vontade do Pai.

Abandonou a própria vida, doando-a em favor de seu povo. Aliás, esta foi a promessa dada a seus pais: “Ela dará a luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mateus 1.21). E, viveu o mais trágico momento da história humana, quando, na cruz, sentiu o abandono do Pai: “Eloí, Eloí, lama sabactâni? Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Marcos 15.34).

Provavelmente, esta é a raiz de sua exortação aos seus discípulos: “Se alguém quiser vir a mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará” (Lucas 9.23-24). Voltando à consideração de Paulo, isto é ter o mesmo sentimento de Cristo Jesus. Isto é viver como ele.

É impossível seguir a Jesus sem ser tirado do lugar que mais desejamos. Esta caminhada longe do nosso ninho para lugares desconhecidos é que nos converte. A conversão não é a simples aceitação de uma fórmula teológica para a eterna salvação. É muito mais, é a descoberta da dolorosa, bela e operante criatividade de Deus durante o nosso viver. Foi essa atividade conversora de Deus que tornou um hebreu fugitivo no libertador de Israel; um menino pastor num rei; pescadores em pescadores de homens; um judeu perseguidor da igreja no apóstolo dos gentios. Em toda ilustração bíblica de conversão, há uma missão atrelada. Ninguém é convertido para benefícios exclusivamente pessoais. Esta pode ser a razão porque temos de perder nossa vida a fim de achá-la. O propósito da conversão na Bíblia não é a nossa auto-realização, mas a missão de Cristo.

As pessoas pensam que sua doença ou seu divórcio ou sua mágoa significam o fim de suas vidas. Elas estão certas! A vida como elas conheciam já era. Em seu lugar elas ganharam não apenas uma nova vida, mas uma nova proposta para a vida. É claro que diante desta proposta, existe alguma aversão, mesmo nos círculos evangélicos, quando se fala em conversão. E por que isto acontece?

Porque alguns, talvez, ficaram embaraçados com algumas mensagens que parecem derreter qualquer possibilidade da verdadeira graça e amor.
Porque outros, possivelmente, conviveram com um povo convertido o tempo suficiente para perceber que não há nada mais realmente diferente para saber sobre eles.

Porque alguns cresceram cansados de ver evangelistas que só ficam contando conversões, mas têm muito pouco para dizer sobre os que estão famintos, sem lar, doentes, nus ou na prisão. Há muito mais no evangelho do que conseguir pessoas para assinar cartões de decisão.

Mas creio, que a melhor razão para alguns se intimidarem quando falamos de conversão é que ela mudará tudo. Confrontados com o abandono, podemos voltar nosso coração para as coisas que perdemos ou voltar em direção à esperança de que Jesus Cristo é de fato nosso Salvador (Filipenses 3.7-12).

Cristo, veio, não para ser eternamente aquela criança de um nascimento diferente, pobre, rejeitada pelos poderosos e amada pelos necessitados. A criança cresceu, tornou-se homem, e assumiu o ministério de nos salvar, levando-nos a assumir uma nova vida, uma nova realidade; que implica em abandonar a nós mesmos; isto é, abandonar a vida segundo nossa perspectiva particular.

Assim, Cristo é vida para quem perde a sua própria vida. Para quem insiste em mantê-la sobre domínio de seu coração, Cristo é um nome bonito e bondoso, um exemplo de que Deus, de alguma maneira não se esqueceu de nós. Mas, somente isso. Para experimentar a vida abundante do Senhor em Cristo, é preciso abdicar da vida de nossos sonhos.

Você está pronto?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Ira atrevida

Intrometida, chega sem avisar
Transformando o dia em pesar
Cheia de si, acusa sempre o vizinho
Como o sujeito do descaminho

Déspota dos sentimentos
Maltrata quem lhe acolhe
Tornando a vida um lamento
Para quem dela colhe

Inimiga da mansidão
A ira apodrece o coração

Dispensá-la é ato inteligente
De quem investe eternamente
Pois acúmulo de maldade
Transforma-se em infelicidade


Pr. Wagner Amaral.
28/11/2008

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Refletindo Cristo, através da singularidade em ser mulher

É comum ouvir, ou ler, pessoas afirmando que a mulher não deve assumir funções, ou postos importantes na igreja por ser mais inclinada ao pecado. Há poucas coisas mais absurdas do que esta nas Escrituras. Em 1 Timóteo 2, Paulo amarra a culpa pelo pecado original na pessoa de Adão, o homem, o ser masculino.

Costumo representar isto através da experiência pastoral em nossas igrejas. Há normalmente mais homem ou mulher nas igrejas? Que ministério funciona em todas as igrejas, mesmo que precariamente? Até em nosso movimento isto é visível, pois que ministério funciona há 40 anos, e que mais e melhor ajunta pessoas em seus eventos?

Pela prática, se deliberarmos a pecaminosidade em nossas igrejas, somos obrigados a dizer, então, que o homem é mais inclinado ao pecado do que a mulher.

Todo o refletir esperado por Deus de você acerca dele, implica em ser mulher. Antes de ser crente, de ser cônjuge, e até mesmo mãe, você é uma mulher!

Eis um pedaço do artigo que escrevi para a Revista Missão Mulher em uma edição passada: Mundo machista impregnado de preconceitos contra a mulher. Olhares tortos, sorrisos desconfortáveis, piadinhas pejorativas: mulher no volante, perigo constante. Por que será que só falam das loiras, sem nenhuma menção aos loiros? Se não bastasse esta desagradável rotina social, ainda é preciso enfrentar a minúscula quantidade de empregos nos setores clássicos (setores de decisão), assim como o reduzido salário em comparação com o nem sempre competente, mas sempre pomposo salário masculino. E pensar que muitas mulheres ajudam direta e indiretamente neste quadro irritante, se mostrando incompetentes em seu preparo, superficiais quanto à realidade, e volúveis em seu caráter. Assumem o estigma que para vencer é preciso ou ser feminista e lutar contra a raça masculina ou ser objeto de prazer, satisfazendo sexualmente o homem e recebendo migalhas de sua admiração e proteção (enquanto úteis).

A dificuldade em refletir a luz de Cristo está em priorizar o que está fora, esquecendo-se do que está dentro; ignorando o que você é, do que foi feita, para quê, e do que precisa para ser preenchida, além da forma de ser preenchida.

Leia 1 Timóteo 2.11-15. Este
texto é um dos mais difíceis de aceitação feminina. Existem várias implicações doutrinárias aqui; porém, quero realçar algo de extrema importância. Algo, verdadeiramente prioritário no texto: A maneira escolhida pelo Senhor de preservar a mulher, em meio à transgressão. O v. 15, originalmente diz: será salva dando à luz filhos, permanecendo com sobriedade na fé, no amor e na santificação. A idéia principal é a de que a fórmula escolhida por Deus para salvar a mulher é através de sua missão de mulher. Ligando-a a seus deveres legítimos, que Deus lhe atribuiu.

Você, como mulher, deve adorar a Deus de um jeito todo especial que só você, mulher, tem e sabe. Louvá-lo com sua sensibilidade admirável que a faz valorizar as pequenas coisas, considerando aquilo que é imperceptível ao homem. Louvá-lo com sua sabedoria e longanimidade que a faz perseverar nos trabalhos. Louvá-lo com sua força incomum que a faz resistir às pressões e ainda amar. Louvá-lo com sua inteligência e habilidade que a faz realizar vários trabalhos ao mesmo tempo, desnudando a inoperância masculina. Louvá-lo com seus defeitos e limites comuns a todo ser humano (masculino e feminino), entendendo que esta limitação a direciona para o Criador e Sustentador de todas as coisas que graciosamente reverte tudo em aprendizado.

Você adora a Deus, prioritariamente, assumindo aquilo que ele criou: sua singularidade como mulher. Você é criação particular de Deus. Há semelhanças com o homem: (1) Essencialmente tanto homem quanto mulher são idênticos diante do Senhor, Gálatas 3.28. (2) Possuem o mesmo Criador, Gênesis 2.7, 18; 5.1-2. (3) Possuem a mesma carne, Gênesis 2.22-24. (4) E o mesmo propósito, Efésios 2.10; Romanos 11.36.

Porém, apesar das semelhanças, existem diferenças: (1) Corpo e cérebro que revelam a diferença óbvia de toda a criação: masculinidade e feminilidade, Gênesis 5.2. (2) Objetivo, Gênesis 2.18. Esta palavra foi empregada 21 vezes na Bíblia. Em 2 vezes foi empregada à mulher como sendo auxiliadora, 3 vezes foi usada referindo-se ao auxílio que uma pessoa presta a outra. Mas, em 16 vezes esta palavra foi usada para descrever o próprio Deus. Quando Deus está dizendo: "Eu farei uma auxiliadora", está usando como referência para o homem o que Ele, o próprio Deus, é para nós. A mulher, assim como o homem, é criação particular de Deus. Criada especificamente para uma obra que somente ela, com os atributos recebidos do Criador, pode realizar.

Além disso, as Escrituras revelam o cuidado particular de Deus para com ela. Apesar da figura masculina de Deus, alguns exemplos e manifestações divinas, revelam a particularidade da mulher, ou da feminilidade (Isaías 66.13; Provérbios 4.3; Mateus 23.37). E, ainda, temos o cuidado de Deus para com ela na proteção, nos conselhos, no direcionamento (Mateus 19.9-10; Efésios 5.25, 28; Provérbios 14.1). Tudo isto revela a bênção (a vantagem) de perseverar em ser mulher, aos olhos do Criador. Como mulher você pode revelar ao homem o seu devido lugar, aquele que Deus instituiu. Nasceu mulher para completá-lo, não como uma pecinha a mais cuja utilidade seja somente o complemento, mas sim como fundamental; pois sem você, humanamente falando, não existiríamos.

A prova de sua importância e grandeza é ironicamente ensinada por Deus em sua palavra: em primeiro lugar fez da mulher a mãe, a que traz à vida, a que está ligada aos filhos de maneira toda especial. Em segundo lugar nos revela que os atributos e características mais admiráveis e que servem de base para a vida feliz e bem sucedida com o Senhor são comuns ao lidar feminino, e estranhos à realidade masculina: amor, bondade, longanimidade, compaixão. No linguajar popular, nós, homens, para sermos perfeitos temos de aprender a pensar e a sentir como você, mulher.

Isto é singular! Deus espera que sua transparência e dedicação sejam iniciadas em manter-se mulher; usufruindo tudo o que Ele lhe deu; e cooperando para o crescimento de todos (cônjuge, filhos e outros). Se você nascesse homem o mundo seria mais feio! Curta sua beleza inigualável e louve ao Criador por ter nascido mulher. Resplandeça a luz de Cristo, através da singularidade em ser mulher.

Refletindo a Cristo (2)

Quero continuar tratando do tema iniciado no domingo passado, baseado em Mateus 5.1-16, especialmente os versículos 14 a 16. Considerando a primeira figura usada por Cristo: o sal na terra, vimos, primeiramente, que devemos refletir o caráter e a obra de Cristo, como a paz, a alegria e a sabedoria, mesmo em meio às tribulações. E, em segundo lugar, vimos como refletir a Cristo. Como o sal, acrescentando sabor, e conservando-o; mantendo a perseverança na nova vida. Cristo realça a diferença daqueles que são dele, e como ele. E como esta diferença precisa ser vivida no mundo.

Seja com a figura do sal ou com a da luz, fica claro que o esperado é que sejamos diferentes. Que façamos a diferença no meio em que vivemos. Então, responderemos a pergunta: Como entender esta diferença através da figura da luz no mundo, usada por Cristo?

Em primeiro lugar, chamando a atenção, servindo de referencial (vv. 14-15). Se o sal serve para ilustrar a ação de Cristo em nós, e através de nós, na terra; ainda mais com a figura da luz. O foco aqui continua sendo a nossa dedicação em viver Cristo, a verdadeira luz. Por isso afirmou: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (João 8.12).

Vós sois a luz do mundo”. Ao passo em que vivemos Cristo, funcionamos para iluminar um mundo que está em trevas. A luz não tem sua origem em nós. Ou não depende única e exclusivamente de nós. A luz está em nós, na pessoa de Cristo, que é a verdadeira luz que ilumina o mundo. Então, não depende de nossa estratégia ou vontade particular, mas de parecermos com Cristo.

“Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte”. A luz de Cristo deve brilhar publicamente, como o agrupamento de casas com suas lâmpadas acessas. Quando viajamos de avião à noite percebemos como a luz dissipa as trevas, como ela chama a atenção em meio à escuridão. Olhamos para baixo e nada, tudo completamente escuro. De repente, visualizamos a luz, ou as luzes, como no caso de uma cidade. É isso o que Cristo está dizendo: é impossível esconder, camuflar, não chamar a atenção, quando acendemos a luz em um monte em trevas. Quando vivemos o caráter de Cristo, se torna impossível não chamar a atenção, positivamente. É impossível não marcar a diferença em meio a tantos igualmente perdidos; em meio a tanta mediocridade moral e espiritual.

Refletimos a luz, que é Cristo, no mundo quando servimos de referencial, como um farol em meio ao mar, principalmente quando a noite é castigada por tempestade, que esconde a luz natural dos astros celestes. E a característica que melhor revela o Senhor é o amor, claramente revelado no retrato do homem bem-aventurado (vv. 1-11). Por isso, Cristo afirmou a seus discípulos: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13.35). As pessoas podem até não compactuar de nossa fé, abraçando nosso estilo de vida; mas, reparam na diferença de nosso viver: Olhando, pensam: “Eis um pequeno Cristo. Não é perfeito como ele, mas é parecido com ele; e me faz pensar nele. E me incomoda, pois, me obriga a repensar meus conceitos, e meu estilo de vida”.

Em segundo lugar, iluminando (v. 15). Cristo afirma: que adianta ter a luz, mas não usá-la? A luz serve para alumiar a todos os que dependem dela. O verbo alumiar aqui é a palavra em grego lampei, de onde se origina a nossa contemporânea palavra lâmpada. E a idéia principal é a de resplandecer. Refletir o brilho. Quando acionado o interruptor é a corrente elétrica que quando passa pelo filamento, torna-o incandescente, produzindo luz. A lâmpada serve para resplandecer quando movida por força elétrica. Esta é a idéia de Cristo. Quando Cristo, com seu caráter, passa em nós ele torna nosso caráter incandescente, produzindo luz.

Iluminamos quando revelamos que com Cristo a vida tem conteúdo, tem sentido. Porém, limitados entre quatro paredes é impossível de se irradiar luz e, muitas vezes o nosso comportamento como filhos de Deus é bem assim. A igreja precisa entrar nas famílias, na vida das pessoas, sair debaixo das vasilhas da dependência humana, da vergonha, do medo e resplandecer a vida de Deus iluminando assim aqueles que vivem em trevas. Foi exatamente isto que aconteceu conosco. Lembram-se do texto considerado pela manhã? 1 Pedro 2.9: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.

Tendo experimentado isto, Cristo nos convoca a sermos lâmpadas, para resplandecer a luz que vem dele aos outros; quebrando a ação das trevas (2 Coríntios 4.3-6). O conhecimento, o sentido que quebra a ignorância da idolatria, da crendice, da mesmice espiritual. O conhecimento que liberta o homem da cegueira, trazendo entendimento da glória de Deus. Como isto funciona através de nós? Quando as pessoas enxergam em nosso falar e proceder: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Este é o andar digno a que fomos vocacionados (Efésios 4.1-3). Funciona quando não vivemos como os demais homens (sem a luz) com seus cacoetes morais e espirituais (Filipenses 2.14-15).

Isto é impactante! (v. 16) Havia nos Alpes, uma pequenina igreja no alto de uma montanha coberta de neve. Era uma linda construção, que chamava a atenção de todos. Um turista que visitava aquela cidade observou um fato curioso: aquele templo não tinha luzes acessas durante a noite. O gerente do hotel explicou: “Foi um homem muito rico quem construiu aquele templo, doando-a à nossa comunidade. Em seu testamento ele colocou a exigência de que nunca deveria haver luz própria no templo. Contudo, hoje é dia de culto e o senhor pode observar o que acontece”. Então, quando escureceu, aquele turista observou que uma lusinha surgira ali; outra acolá; todas subindo o monte rumo à igrejinha e, em dado momento, quando as lusinhas se encontraram dentro do templo, a igreja toda brilhou, espalhando luz em seu redor, como um verdadeiro milagre. O mundo jaz em trevas. Nós, em Cristo, somos a luz do mundo.

Sua vida (pensamentos, palavras e ações) tem acrescentado Cristo, como tempero, à vida de outros?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Refletindo a Cristo

“Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens” (Mateus 5.13).

Quando usamos o termo “refletir”, somos imediatamente levados à figura da luz, ou de seu reflexo. E, por isso, talvez, alguns até questionam o porque de Cristo ter usado a figura do sal na terra. Mas, “refletir” implica revelar, em exprimir, em traduzir.

Neste sentido, visando passar algum tipo de mensagem, a idéia do sal na terra funciona perfeitamente. Dá, até para entender o porque, provavelmente, Cristo usou primeiramente a figura do sal, para então usar a da luz no mundo.

Analisando as palavras de Cristo, primeiramente, temos de entender o que deve ser refletido. Quando analisamos as bem-aventuranças, e tentamos visualizar o retrato do tipo de pessoa da qual Cristo trata, a figura que nos vêm à mente é a do próprio Cristo (1-11): Humilde de espírito; sensível à realidade; manso; justo; misericordioso; limpo de coração; pacificador; perseguido e injuriado por causa da justiça, da verdade. Quem possui estas características? Quem melhor se encaixa neste retrato? Cristo. Isto fica, ainda mais claro, no v. 11, quando ele afirma que a perseguição e a injuria naturalmente aconteceria àqueles que se ligassem a ele. Aqueles que vivessem à sua semelhança, seguindo os seus passos. Lembre-se de que ele falava aos discípulos (vv. 1-2). Discípulo é aquele que perde sua identidade própria, moldando-se à identidade de seu mestre.

Assim, Cristo ensinou que seus discípulos deveriam refletir seu caráter e obra. Deveriam ser como ele. E exatamente por isso, logo no início da igreja, encontramos esta identificação (Atos 11.25-26): “cristãos”: pequenos cristos.

É neste sentido que entendemos o texto de Paulo, escolhido pelas irmãs como texto moto para este retiro 2 Coríntios 3.18: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. Ou, então, quando Paulo afirma em Gálatas 2.20: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”.

Como último exemplo, entendemos quando Pedro afirma em sua primeira carta, 2.9: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. Mais tarde, no mesmo capítulo, Pedro exorta seus leitores a serem exemplares em seu procedimento no meio dos gentios. É o entendimento do que Cristo ensinou a ele e aos demais discípulos.

O que refletir? Somos, então, convocados a refletir o caráter e a obra de Cristo. Não há como separar um do outro, pois o seu caráter é revelado através de seu ministério. E sua obra, naturalmente, revela o seu caráter (santidade, justiça, mansidão, misericórdia, verdade, ...).

Após entender o que refletir, precisamos compreender como refletir. Seja com a figura do sal ou com a da luz, fica claro que o esperado é que sejamos diferentes. Que façamos a diferença no meio em que vivemos. Como entender esta diferença através da figura do sal, usada por Cristo?

Em primeiro lugar, dando sabor. Acrescentar sabor, tornando a comida gostosa. Levando aqueles que a experimentam a fazê-lo prazerosamente, e não simplesmente por necessidade.

O que é uma feijoada sem sal? Ou, em se tratando de mistura em caldo, minha comida predileta: dobradinha. Como engolir uma dobradinha sem sal? O que seria de nós sem os temperos? Sem tempero não haveria a mínima possibilidade de se conquistar alguém pelo estômago.

Pois bem, com a figura do sal Cristo revela a necessidade de se acrescentar àquilo que não é comum aos homens, mas sim a Cristo; e aos que vivem com Cristo. Por exemplo: Paz, alegria e sabedoria. E isto é perceptível através da figura retratada naquele que é bem-aventurado: Que possui paz mesmo em meio à injustiça e à perseguição. Isto porque é pacificador, sendo, então, filho de Deus (v. 9). Que possui alegria mesmo em meio ao choro, à injustiça e perseguição. Isto porque possui alegria verdadeira ao ser limpo de coração (v. 8). Que revela sabedoria mesmo em meio aos problemas ao agir com misericórdia e mansidão, não cultivando o mal, e a ira; dando lugar assim para o ódio, a amargura, o estresse, a impossibilidade de se perdoar. Ser decididamente diferente do jeito comum de pensar, falar, agir, e reagir. Falar e agir como Cristo faria. Ser tão parecido com ele, que esta identificação se torna evidente, acrescentando sabor ao cotidiano, à vida insossa das pessoas.

Em segundo lugar, conservando. No tempo de Cristo não havia geladeira, muito menos freezer. Como as pessoas conservavam a carne? Salgando-a. Isto ainda é feito em nossos dias.

Nos alimentos tanto na forma “in natura” como processado industrialmente, a multiplicação microbiana ocorre em função do tipo de alimento e das condições ambientais. Os processos de conservação baseiam-se na destruição total ou parcial dos microrganismos capazes de alterar o alimento.

No processo comum de nossos dias, o frio é bastante utilizado na conservação dos alimentos perecíveis, tanto os de origem animal como os de origem vegetal. Basicamente, o frio conserva os alimentos porque retarda ou inibe a multiplicação microbiana.

Já o sal provoca a diminuição da atividade de água dos alimentos, que é um fator de necessidade para a reprodução microbiana, aumentando desta forma a conservação dos alimentos. Os alimentos salgados podem, assim, ser mantidos à temperatura ambiente. É o caso do charque, do bacalhau, sardinhas e de outros pescados.

Pois bem, com a figura do sal Cristo revela a necessidade de se conservar a vida. Conservar aquilo que vale à pena no viver. É claro que as aplicações são variadas. Poderíamos aplicar à doutrina, aos relacionamentos, à santidade, à própria nova vida doada por Deus aos seus.

Como podemos, simplesmente, aplicar à continuidade na tarefa anterior de dar sabor. Ser perseverante em refletir o caráter de Cristo e sua obra, conservando a diferença entre aqueles que são do Senhor e os que não são. Conservando o sabor.

Isto é fundamental! Se o sal vier a ser insípido, ... para nada mais presta senão ser jogado fora. Se o sal se tornar insosso, desagradável. Como isto ocorre? Quando ele perde suas características, suas propriedades.

O sal perde o sabor quando se nega a sua vocação, que é se dar. O valor do sal está em sua dissolvência, aceitando a sua missão invisível de ser sentido sem ser visto. O sal que é visto, não é sentido; pois o sal que é sentido, não é mais visto, porque se tornou parte do sabor que anima os humanos a comer com prazer. O sal se preserva como sal sendo capaz de se deixar comer, sumir, se tornar vida para os outros.

Cristo afirma que seus discípulos, como sal, se não se não se doarem aos outros para que suas vidas recebam o sabor que é Cristo, para nada mais presta senão ser jogado fora.

Se não servirmos para dar sabor à vida dos outros, acrescentando o tempero que é Cristo, por meio de seu caráter e obra, não servimos para viver. Isto é, deixamos de ser sal com todas as suas propriedades. Passamos a ser insosso, inútil e desagradável.

Sua vida (pensamentos, palavras e ações) tem acrescentado Cristo, como tempero, à vida de outros?

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Inteligência feminina


Costuma-se dizer que a mulher faz o que quiser com o homem! É o mesmo que se dizer que ela o tem em suas mãos, ou como afirmam algumas: “ele come o que eu der”.

Distante da pretensão inserida nestas afirmações, mas, próximo da mensagem, o Senhor revela através de sua Palavra que a mulher sábia é aquela que, conhecendo seu marido, sabe estabelecer a sua vontade, contribuindo para o viver.

O texto mais conhecido revela os dois lados da moeda: “A mulher sábia edifica a sua casa, mas a insensata, com as próprias mãos, a derriba” (Provérbios 14.1). De um lado, sábia é aquela que tudo o que faz implica em edificação para seu lar. Edificação, por usa vez, implica em amor, alegria, crescimento, ausência de “domínio”, de ludibriação, de malícia. A inteligência feminina, revelada pela constante percepção dos detalhes, ajuda a mulher a perceber o que seria melhor para os seus, e a melhor forma de fazer os seus entenderem isto, sem parecer que veio dela.

Por outro lado, insensata é aquela que tudo o que faz implica em destruição para seu lar. Um agir “fora de hora”, revelado por comportamento espalhafatoso, ou palavras iradas, ou uma insistente impaciência, transformando-a no retrato da chatice (um gotejar contínuo).

O mais interessante no texto é a idéia de que “com as próprias mãos” a mulher destrói sua casa. Isto é aplicável à mulher que se gaba de ter seu marido “na palma de sua mão”. Insensata, pois não percebe que ao buscar tal coisa, ou ao proclamar tal “astúcia”, está realçando a forma pecaminosa de agir no relacionamento com seu cônjuge. Um agir que não conta com a bênção do Senhor, por não ser santo e edificante.

A inteligência feminina é demonstrada em palavras e ações que visam edificar o lar, a partir da edificação do marido. Assim, a propaganda de que “o marido está na palma de sua mão”, ou “que faz o que você quer”, serve como confirmação de que a insensatez prevalece, destinando-a à destruição.

Assim, toda prudente mulher usa a inteligência que o Criador lhe deu para edificar sua casa, a começar por seu relacionamento conjugal; sendo sábia, no Senhor!

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Sucesso absoluto

Outro dia peguei um livro para ler. Era um livro escrito especialmente para tratar da área conjugal, endereçado a jovens casais. Livro evangélico, de autor cristão bem firmado! Encontrei a seguinte sugestão, logo no primeiro capítulo: “Como mandar a esposa embora sem o mínimo esforço”. A resposta é simples: Não a ame. A vida confirma aquilo que Deus já revelara, o que compactua com a tese do autor: A ausência de amor demonstrado, compartilhado, não somente esfria, como torna feio o relacionamento.

O Senhor afirma através das Escrituras: “As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo desprezado.” (Cânticos 8.7). Isto não é utopia, não é apenas sonho para os românticos, é realidade; porém, é realidade para um amor vivido, compartilhado. O versículo anterior, falado pelo noivo, afirma: “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura, o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas.” (Cânticos 8.6). Estas palavras resumem o tema de todo o livro. Cânticos de Salomão não é um livro simbólico do relacionamento de Cristo com sua igreja. Cânticos de Salomão não é simplesmente uma cantata. Cânticos de Salomão é um livro revelado por Deus para falar do amor. Para provar que a vida a dois é possível. Que o casamento pode e deve ser bem sucedido. Que o relacionamento conjugal é para ser vitoriosamente alegre, bonito, prazeroso e divino.

“Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço”. Um sinete ou um selo era um anel usado na mão direita, ou carregado sobre o coração por meio de uma corrente pendurada no pescoço. Era emblema de autoridade e, portanto, uma propriedade muito preciosa. O simbolismo é a expressão do desejo irresistível de ser a preciosidade de seu cônjuge. Ser aquilo que vale a pena! Mesmo se tudo der errado; se todos os projetos fracassarem; se todos se afastarem, eu ainda o tenho. Ou mesmo que o sucesso bata a porta, trazendo até aquilo que não foi planejado, coisas grandiosas e maravilhosas, ainda terei minha maior preciosidade: ainda a terei como esposa. É impossível ser aquilo que vale a pena sem viver o amor, sem compartilhar os pensamentos, sem diálogo, sem o beijo carinhoso, e o abraço confortante; sem o prazer do relacionamento sexual contínuo e crescente.

Todos os noivos têm pais, padrinhos, amigos; estão rodeados de pessoas sorridentes e tristes; e ouvem todos os tipos de conselhos (do mais interessante e edificante ao mais ridículo e destruidor). Descobrem inúmeros casais que há muito não compartilham o amor. Estes vivem teatralmente, vivem das aparências, que enganam a muitos, mas não a todos. A razão desta infelicidade? Não vêem seu cônjuge como o selo sobre o coração, como selo sobre o braço. Não vêem seu cônjuge como sua preciosidade. Como aquilo que realmente vale a pena.

As desculpas são muitas, e diversificadas; mas, a realidade é que tem prevalecido uma incrível onda de infidelidade. Infidelidade não somente pensando na traição conjugal, mas pensando em tudo aquilo que é prometido ao Senhor e às testemunhas, e a si própria, no dia do casamento - amar, cuidar, respeitar, servir, priorizar, etc... Quando não se cumpre com qualquer destas promessas, torna-se infiel. E esta, sim, é a razão principal pelo desastre de muitos casamentos: não se vive aquilo que é prometido, logo, como esperar sucesso?

O amor não pode ser apagado ou afogado pelas muitas águas; nem pode ser trocado por todo e qualquer bem, desde que seja vivido, desde que seja compartilhado, dia-a-dia, através do planejamento, do diálogo, das conquistas, das derrotas, do afeto, e do temor ao Senhor. Quem vive este amor, experimenta a alegria no Senhor. E percebe que o casamento, o autêntico, é sucesso absoluto.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Nome de que vive, mas está morto

“Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto” (Apocalipse 3.1b). Esta afirmação é feita por Cristo à igreja em Sardes. Nome, posição, obras, tudo o que é esperado de uma igreja. Porém, morta!

A ênfase nesses casos não está na ausência de atividades, ou mesmo, de responsabilidades. Como a carta revela, a Igreja em Sardes tinha obras a apresentar; porém, não íntegras: “não tenho achado íntegras as tuas obras” (v. 2b). Assim, a ênfase recai sobre a motivação; sobre a intenção do coração.

Igrejas a cada dia mais próximas do ativismo estrutural, e mais distantes do prazer da companhia de seu Senhor, e do cuidado para com os seus. Pastores e líderes paulatinamente mais profissionais, e menos espirituais. Crentes perdendo o primeiro amor (assunto da primeira carta, a Éfeso), e jazendo em seus sonhos e projetos de gigantismo pessoal. Possuem obras! Há crescimento numérico. Há organização, variedade, e sensação de “dever” cumprido. Mas não há paz! Não há efervescente prazer no Senhor. Não há vida, revelada na crescente amizade entre os irmãos; na aplicação contínua dos princípios divinos; e, na livre, e doce, manifestação de adoração.

Diante desta realidade há uma tremenda urgência de quebrantamento. “Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer. Lembra-te do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te” (vv. 2a, 3a). É Cristo convocando a um acordar para a realidade, e um conseqüente quebrantar. E isto, por meio de dois passos fundamentais: Primeiramente, arrependimento. Reconhecer o erro. Assumir falência no governo de sua própria vida. E, em segundo lugar, um viver pelos princípios do Senhor. Um lembrar-se do que tem recebido, e guardar, isto é, considerar. Viver, como escreveu Tiago: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (1.22). Seria um recomeço. Um abandonar da morte em vida, e um assumir da vida em morte: morte do eu para um viver em Deus.

O nome, a posição assumida e guardada, as obras, tudo tem seu valor; mas, se no coração não houver vida, de nada valem. Se o combustível para tudo não for a humildade no Senhor, o amor por ele, manifestado aos irmãos, e o prazer interminável em viver aquilo que ele doa; haverá morte. Respiração, porém, sem esperança.

Somos exortados a assumir o nome de “Cristo”. Assumir nossa posição nele. Nossas obras serem “nosso culto a ele”. Nada em nós, nada de nós, muito menos para nós. Pois, não devemos morrer com nosso nome, nossa posição, e obras, que nada podem. Mas sim viver em Cristo, por ele e para ele, sempre.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Rotina de crente



Você acorda
Você se arruma
Você sai
Você chega na igreja
Você diz (várias vezes): “Oi, tudo bem?”
Você responde: “Tudo bem!” (mesmo que não esteja)

Você sorri, ou pelo menos tenta
Você ora
Você canta
Você lê a Bíblia
Você ouve pessoas e grupos cantando
Você ouve a mensagem
Você acompanha a aula

Você conversa
Você cumprimenta as pessoas
Você vai embora

Você almoça
Você descansa
Você volta para a igreja
Você passa por todo o processo acima alistado, menos acompanhar a aula

Domingo após domingo
Semana após semana

Tem melhorado seu relacionamento com o Senhor?
Tem melhorado seu relacionamento com a família?
Tem melhorado seu relacionamento com os irmãos?

Caso contrário,
Você continuará acordando
Você continuará se arrumando
Saindo
(....)
E para quê?

Que o senhor enriqueça sua vida!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Batidas...


Batidas. O tempo se mede com batidas. Seja com as de um relógio, ou do coração. Os gregos tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio - embora não tivessem relógios como os nossos - davam o nome de chronos. Daí a palavra “cronômetro”.

As batidas do relógio insistem numa absoluta indiferença à vida. Vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. Não importa se há riso ou choro, vida ou morte; suas batidas são frias, e duras de se agüentar.

Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. A estas batidas falta a precisão dos cronômetros, pois dançam ao ritmo da vida (e da morte). Batidas tranqüilas, e de repente agitadas. Tocadas pelas emoções, dá saltos. Tropeça. Retorna à rotina. A esse tempo os gregos davam o nome de kairós.

Chronos é um tempo sem surpresas. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música será lenta, ou animada; calma ou estressada. O relógio nos diz com precisão o número de dias, horas e segundos decorridos desde o nosso nascimento. Porém, o nosso coração nada sabe sobre esses números. Quando me lembro de algumas experiências, é como se as tivesse vivido ontem.

Nossos filhos crescem (os meus são adolescentes). De vez em quando, nos damos conta disto, e mal acreditamos. Quando somos guiados por chronos lembramo-nos de que estamos envelhecendo. Porém, quando guiados por kairós percebemos que estamos vivendo.

Quem sabe somar e multiplicar tem a chave para entender as medições de chronos. Porém, esta chave não funciona para o coração, pois kairós mede a vida pelas pulsações das emoções. Kairós mede a vida por saudades. Toda saudade é uma espécie de velhice. Velhice não se mede pelos números de chronos; ela se mede por saudade. Saudade é o corpo brigando com o chronos, não suportando perder o que se ama. É como a criança e o colo que o tempo levou, mas que não gostaríamos de que tivessem sido levados! E isto nada tem a ver com horas, minutos, e segundos; mas, sim com emoções experimentadas por kairós.

Heráclito, filósofo grego, afirmou que o “tempo é criança brincando, jogando”. Crianças odeiam chronos, odeiam as ordens que vêm dos relógios. As crianças não usam relógios para marcar tempo; usam relógios como brinquedo; usam prazer, emoção, usam seus próprios corpos. Criança é kairós brincando com chronos, como se ele fosse bolhas de sabão...

Salomão afirmou em Eclesiastes 3.1-15, que há tempo para todo propósito debaixo do céu. E que o Senhor o determinou para nossa experiência. A começar por tempo de nascer e tempo de morrer. Porém, como resultado de sua experiência de vida afirmou em todo o livro que enquanto há fôlego é tempo de viver. O que inclui alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, entre tantas outras coisas. Mas, sempre é tempo de viver, pois a morte chega quando não temos prazer em nossos dias. Quando se escurece o sol, a lua e as estrelas. Quando tudo se transforma em medo e dor. Em dias assim, as batidas que imperam são as de chronos, aguardando somente a partida final. O romper do fio de prata; o despedaçar do copo de ouro; o voltar do pó a terra, e do espírito a Deus, que o deu.

A cada fim de ano chronos faz as somas e me diz que fiquei mais velho. Então, kairós vem em meu socorro para espantar a tristeza. Vem como criança, brincando com chronos. Lembrando-me de que mais valioso do que envelhecer, é viver. Ter um relacionamento de amor com a vida. E, quando sou levado pelas batidas de kairós, acontece uma estranha metamorfose: deixo de ser velho. Sou criança de novo..., experimentando vida abundante.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Escutatória

Há muitos anunciados cursos de oratória. Nunca vi um anunciado curso de escutatória. Todos querem aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas tenho receio de que ninguém se matricule.

Falar é fácil; mesmo quando não se seguem as regras da retórica. Escutar é complicado e sutil. É incrível como não agüentamos ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que temos a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que temos a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo somos os mais bonitos... Parafraseando Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

É preciso tempo para entender o que o outro falou. Quando se fala logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: Ficar em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não se ouve o que outro fala. Enquanto o outro fala se pensa nas coisas que falará quando o outro terminar sua (tola) fala. Fala como se o outro não tivesse falado. Segunda: Ouvir o que o outro falou. Mas reagir como que o que seria novidade para quem fala, não o fosse para quem escuta. Tanto que nem se precisa pensar sobre o que se falou. Em ambos os casos se chama o outro de tolo. O que é pior que um tapa. Ao contrário, o longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”.

Há uma música que diz: “Eu te busco, te procuro, ó Deus. No silêncio tu estás...”. Apesar de não ser tocada e cantada em “silêncio”, esta mensagem tem muito a ensinar. Nas Escrituras aprendemos que a natureza revela seu Criador, em silêncio: “Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz” (Salmo 19.3-4). É maravilhoso como autenticamos isto quando em silêncio, longe do barulho da vida cotidiana, contemplando a criação.

Aprendemos que é possível se alimentar de silêncio. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio de dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio de dentro, se começa a ouvir coisas que não ouvia. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Talvez seja essa a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia. Ouvimos o Senhor: “Bom é aguardar a salvação do Senhor, e isso, em silêncio” (Lamentações 3.26). Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro se junta num contraponto com nossa beleza. Comunhão só é possível quando boca, ouvidos e coração partilham de um mesmo momento. Mas, enquanto existirem somente bocas.....
(Motivado por texto de Rubem Alves em "O amor que acende a lua")

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Cresçamos!

Os da direita embicam cada vez mais para seu lado. Os da esquerda, da mesma maneira para o lado oposto. Os do centro (existem?) não sabem para onde ir. Como unir este povo tão dividido por suas convicções?

“Seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4.15).

Gosto deste texto! Aprecio a revelação do Senhor por meio da visão, e sabedoria de Paulo. Temos muito a aprender com este texto de simples entendimento, mas de profunda aplicação para o desenvolvimento de nosso movimento, buscando a edificação no Senhor.

Primeiro, “seguindo a verdade”. Seguir a verdade, que é o próprio Cristo, é passo essencial para todo o que é seu discípulo. Não é qualquer verdade, nem tão pouco “a nossa verdade”, mas Cristo, como o apóstolo apresenta nos versículos anteriores.

Segundo, “seguindo a verdade em amor”. Não é somente a assimilação do que compõe a verdade, o que em parte vemos sistematicamente através da doutrina, mas a incorporação da verdade, em amor. Aliás, esta verdade, que é Cristo, em sua essência não existe sem amor. Esta verdade aponta para o amor, caminha pelo amor, suporta por amor, é o amor.

Terceiro, “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo”. Uma vida na verdade, e através da verdade, que é Cristo, alicerçada por Seu amor, tem como única conseqüência o crescimento, e como o apóstolo afirma: em tudo. Crescimento espiritual, refletido através da maturidade, da serenidade nas resoluções tomadas. Crescimento moral, observado por atitudes eticamente equilibradas, e em nada conflitantes com a verdade. Crescimento social, visível nos relacionamentos saudáveis, a começar pela liderança, pelos pastores, sendo reproduzido nos membros, criando amizade, parceria, desenvolvimento para a glória do Senhor. Crescimento material, resultado da unidade entre as igrejas que compõem o movimento. Enfim, crescimento em tudo!

Quarto, “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”. Todo o processo, bem estruturado, bem amarrado, seguindo os princípios daquele que é Senhor da Igreja. O que nos cabe é o desejo de ser-lhe fiel, como nos apresenta o apóstolo na continuação do texto: “todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (v. 16).

Priorizamos a fidelidade ao Senhor por meio de seus princípios. Mas para que esta fidelidade seja completada, faz-se necessário transformá-la em algo visível, palpável, experimentável nos relacionamentos, nas parcerias de trabalho, na serenidade nas decisões.

Sonhamos com um povo batista regular maduro, modelo na verdade, no amor, no crescimento, enfim no relacionamento com o Senhor, observado no relacionamento entre nós.
Cresçamos, unidos no Senhor!